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 BONS MOMENTOS EM GARARU

 

          Num dado momento o sargento Flodualdo Santana foi transferido para a cidade de Gararu e ali assumiu a função de comandante do destacamento local. Na ocasião eu tinha oito anos, era janeiro de 1963 quando ele decidiu mudar a família para aquela pacata cidade. Nossa mobília não passava de uma cristaleira, um pequeno guarda roupa, uma cama de casal, uma mesa e algumas cadeiras, mudança que foi transportada numa pequena canoa, saindo da Ilha do Ouro com destino a Gararu levada pela correnteza do velho Chico. Relembro que viajei nesta embarcação da mudança, mas minha mãe e as três crianças menores talvez tenham seguido noutro transporte mais seguro.

          O sargento Flodualdo havia alugado na pacata cidade uma modesta casa nas imediações dos fundos da matriz, e ali fomos morar. Em termos de evolução notei grande diferença entre Porto da Folha e Gararu. Na nova morada havia torneira com água encanada e iluminação à motor, coisas que em Porto da Folha agente não dispunha, pois na terra natal ainda não havia água encanada e a energia do gerador era limitada a poucas residências.

          Recordo-me muito bem daquele curto período em Gararu. Nelson Rezende acabara de tomar posse na prefeitura municipal, posteriormente um grande baile para adultos foi organizado no salão da prefeitura, observei uma orquestra tocando e vários casais dançando, depois veio o carnaval e pela primeira vez pulei compartilhando do bloco de crianças que desfilou ao lado da praça principal. Em março meu pai foi comigo até a escola que ficava num ponto mais elevado, ali fizemos a matrícula e logo comecei a frequentar as aulas, cujo material escolar era um caderno, um lápis e uma cartilha intitulada “Upa! Upa! Cavalinho”. Tudo ia muito bem com o casal Flodualdo e dona Maria Odete com seus quatro filhos, eu com 8 anos, Raimundo com quase 5, Gerusa com 2 anos e poucos, e o pequenino Armando com 1 ano e alguns meses de vida. Nessa época Joãozinho, o mais velho, já morava em Propriá com tia Ritinha. 

          O ambiente de trabalho do meu pai era muito tranquilo, no quartel havia uma cela totalmente vazia, também não observei ele ordenar qualquer detenção de alguém neste período de estadia. De fato estávamos diante de uma cidade pacífica em sua plenitude.        

          Recordo-me também de haver brincado com uma canoínha de mulungu na lagoa ao lado, quando de repente notei que minhas pernas coçavam muito, olhei e avistei várias sanguessugas grudadas! Saí correndo dali e nunca mais quis brincar de canoeiro naquela lagoa. Recentemente passei por lá e notei grande modificação, onde havia a pequena lagoa hoje é uma Praça de eventos com a estátua do índio Gararu. 

          É verdade, jamais me esquecerei dos bons momentos de minha infância vividos naquele lugarejo, onde certo dia estive com papai numa pescaria e vi quando ele, silenciosamente, cercou uma moita com uma tarrafa, e quando balançou a moita ouviu-se um forte barulho do cardume de piaus se deparando com a tarrafa. Neste lance o sargento conseguiu encher um cesto de peixes, cerca de vinte quilos. A partir deste momento, os pescadores da localidade apelidaram a moita de “MOITA DO SARGENTO”, que durante certo tempo foi comentada pelos pescadores. Infelizmente com o controle da vasão do velho Chico, a lagoa onde existia a citada moita não enche mais.

          Foram momentos maravilhosos vividos nesta pequena cidade. Naquela ocasião, Dinha, filha do comerciante Arnaldo, era uma das meninas mais lindas da localidade, mas nunca cheguei a conversar com ela. Relembro também que compareci ao aniversário de um guri de nome Sérgio, foi a primeira festinha de aniversário que participei, pois na terra natal ainda não tinha presenciado idêntica comemoração.

          Mas, como diz o ditado “tudo que é bom duro pouco”. Nossa permanência em Gararu logo chegou ao fim, apesar de meu pai ter tentado agradar ao Prefeito com peixes frescos, algumas vezes levados por mim na residência do próprio Nelson. Nenhum agrado foi suficiente. Em julho o policiamento de Gararu teve que ser substituído, pois o gestor precisava fazer alterações a pedido de seus eleitores. Finalmente tivemos que retornar ao Porto da Folha levando de Gararu eterna saudade.

Por Joaquim Santana, fevereiro/2018.